Salvador Memória afro-brasileira

Camadas de memória afro-brasileira no Pelourinho

Entre restauração patrimonial e celebrações religiosas, o centro histórico de Salvador guarda disputas silenciosas sobre quem conta — e quem silencia — a história do bairro.

Ilustração editorial de fachadas coloridas no Pelourinho

Na Ladeira do Carmo, um grupo de turistas fotografa a fachada amarela de um sobrado do século XVIII. Poucos metros adiante, no Terreiro de Jesus, um cortejo de candomblé atravessa a praça com atabaques e vestes brancas. As duas cenas coexistem todos os dias no Pelourinho — e raramente conversam na mesma narrativa.

Para muitos visitantes, o bairro é cartão-postal: cores, música, gastronomia. Para moradores mais antigos e para pesquisadores de memória afro-brasileira, o Pelourinho é também um arquivo vivo de violências coloniais, resistências religiosas e políticas públicas que, desde a década de 1990, tentaram transformar ruínas em patrimônio turístico.

Patrimônio e apagamento

A restauração conduzida pelo IPHAN e pelo Governo da Bahia entre 1992 e 1996 recuperou edificações, mas deslocou centenas de famílias para periferias como Plataforma e Calabetão. Esse movimento ficou conhecido como "remoção do Pelourinho" e ainda alimenta debates em audiências públicas e nas aulas de história local.

"Minha avó costumava dizer que a cidade bonita foi feita com nossa saída", conta Dona Conceição, 78 anos, que hoje mora em Liberdade mas nasceu em beco atrás da Igreja de São Francisco. Seu depoimento integra um acervo oral mantido por pesquisadores da UFBA, ainda sem divulgação ampla na internet.

O Pelourinho que o turista vê é uma camada. Debaixo dela há outras: a do escravizado, a do posseiro urbano, a do artista que chegou na década de 1980.

Religião como arquivo

Terreiros de candomblé e igrejas católicas compartilham o mesmo quarteirão em vários pontos do centro histórico. Essa proximidade não é mera coincidência arquitetônica: é resultado de séculos de sincretismo, perseguição e negociação. Arquivos da Arquidiocese de Salvador e registros de irmandades negras do século XIX mostram processos contra líderes religiosos acusados de "feitiçaria" — documentos que historiadores como João José Reis ajudaram a ressignificar.

Hoje, festas como a Lavagem do Bonfim e cortejos de Oxum atravessam o Pelourinho com autorização da prefeitura, mas ainda enfrentam ruídos com moradores recém-chegados e com a lógica comercial de bares e casas noturnas. "O tambor incomoda quem não sabe o que está ouvindo", resume Mestre Albano, dirigente de afoxé há quatro décadas.

Turismo e simplificação

Guias credenciados são obrigados a mencionar a origem do nome "Pelourinho" — referência ao pelourinho onde escravizados eram punidos. Na prática, a explicação dura segundos entre uma parada para caipirinha e outra para comprar lembrancinhas. Pesquisadores alertam para o risco de "patrimonializar o sofrimento" sem devolver dignidade narrativa às comunidades descendentes.

Projetos locais tentam reverter essa simplificação. A Associação Cultural do Pelourinho mantém oficinas de história para jovens; o Museu da Misericórdia abriu em 2023 uma sala sobre escravidão urbana em Salvador, com objetos doados por famílias. São passos pequenos, mas que indicam uma disputa em curso.

O que fazer com a memória

Não existe consenso sobre o futuro do bairro. Há quem defenda mais regulação do aluguel para evitar gentrificação; há quem peça investimento em habitação popular para famílias deslocadas; há quem acredite que apenas o turismo garante emprego. O que une essas posições é a percepção de que a memória afro-brasileira não pode ser reduzida a espetáculo.

Esta reportagem consultou seis entrevistas gravadas, inventários do IPHAN e atas de reuniões comunitárias de 2019 a 2025. Nomes de moradores foram alterados quando solicitado. Para aprofundar, recomendamos a obra de Ana Maria Lugão Rios sobre escravidão em Salvador e o arquivo digital da Fundação Pierre Verger.

Helena Costa

Historiadora · Salvador, BA

Doutora em história social pela UFBA. Pesquisa patrimônio, memória negra e políticas culturais no Recôncavo baiano. Colaboradora da Memória desde 2025.

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