Na Rua 13 de Maio, uma porta de madeira escura abre para uma sala com mesas de reunião e estantes de pastas encadernadas à mão. É a sede provisória do Arquivo Voci del Bixiga, iniciativa comunitária que desde 2024 grava depoimentos de descendentes de imigrantes italianos — principalmente venetianos e calabreses — que ajudaram a moldar o bairro Bela Vista, popularmente conhecido como Bixiga.
O projeto nasceu quando Carla Mendonça, professora aposentada de língua italiana, percebeu que vários idosos do bairro morriam sem que suas histórias fossem registradas. "Meu pai falava dialeto em casa, mas eu nunca gravei", ela diz. "Quando ele partiu, levou um dicionário inteiro que não existe mais no papel."
Oficinas e vizinhança
Entre 1890 e 1930, o Bixiga concentrou tipografias, marcenarias e pequenas fundições. Muitos imigrantes chegaram com passagem paga por padronatos e foram realocados em pensões coletivas. Os depoimentos coletados pelo arquivo repetem um padrão: trabalho exaustivo, solidariedade entre compatriotas e conflitos com autoridades sanitárias que rotulavam o bairro como "insalubre".
Angelo Ricci, 91 anos, lembra da oficina de bicicletas do pai: "Consertávamos para polícia e para o pessoal do teatro. Não tinha dinheiro, mas tinha crédito no armazém do Seu Gino." Sua fita de áudio — 47 minutos — está catalogada como AVB-023.
História oral não é nostalgia. É evidência de como a cidade foi construída por mãos que raramente aparecem nos livros didáticos.
Festas, comida e língua
O Festival de San Gennaro, realizado anualmente na Rua Cardoso de Almeida, é o evento mais visível da herança italiana no bairro. Menos conhecida é a rede de receitas transmitidas oralmente: brodo, polenta de festa, doces de festa de padroeira. O arquivo registra "sessões de cozinha", nas quais depoentes narram procedimentos enquanto cozinham — um método inspirado em projetos de etnografia alimentar da Universidade de São Paulo.
O dialeto, porém, está em extinção acelerada. Dos 34 depoimentos gravados até maio de 2026, apenas oito incluem trechos em vêneto ou napolitano fluente. Pesquisadores envolvidos no projeto discutem parceria com o Museu da Língua Portuguesa para disponibilizar amostras com transcrição bilíngue.
Como se constrói um acervo
O Arquivo Voci del Bixiga segue protocolos simples: autorização assinada pelo depoente, gravação em WAV, transcrição revisada pelo entrevistado e depósito de cópia em HD externo guardado em local diferente da sede. Não há financiamento público fixo; custos de equipamento foram cobertos por vaquinha e doação de um estúdio de áudio da Vila Mariana.
Historiadores consultados para esta reportagem elogiam a iniciativa, mas alertam para o risco de "arquivo fechado": sem política de acesso, o acervo pode virar arquivo de família ampliado, invisível para pesquisa. A coordenação promete publicar um catálogo online até o fim de 2026, respeitando pedidos de sigilo.
Imigração e memória urbana
O Bixiga mudou. Prédios altos substituíram sobrados; estudantes universitários dividem quitinetes com idosos; restaurantes turísticos convivem com botecos de longa data. A memória italiana não é a única do bairro — há forte presença afro-brasileira, LGBTQIA+ e, mais recentemente, comunidade coreana. O arquivo pretende abrir espaço para essas vozes em fase dois do projeto.
Para quem caminha hoje pela Rua 13 de Maio, poucas placas indicam essa história. Talvez um acervo oral seja a forma mais honesta de devolver complexidade a um território que muitas vezes é reduzido a festa e gastronomia. Como diz Carla Mendonça: "Sem gravação, sobra anedota. Com gravação, sobra prova."